8.14.2013

Trióxido de Arsênio


Ando pelas ruas desertas dessa cidade, já deve passar de meia-noite, mas não sinto medo, na verdade sinto-me em pura nostalgia, nada é tão maravilhoso quanto ficar só, andando pelas ruas, observando a lua, e ouvindo apenas o vento, e as folhas. É tão sublime esse sentimento que sai de mim, no entanto, são apenas por uns instantes que me sinto tão livre e feliz, logo a realidade vem a tona, e me lembro o motivo de estar aqui.
Se eu pudesse esquecer, se eu conseguisse esquecer, mas apenas em martirizo, me sinto pior a cada segundo e não vejo mais razões para viver, minha vida perdeu seus alicerces, e tudo foi por água abaixo. Se em um segundo acreditava que era possível ter esperanças, que era possível esperar e atingir minhas metas, no momento seguinte já não acreditava em mais nada.
Fico questionando-me se eu nasci para viver desilusões, para ter desgostos, e para ser a pessoa mais cruel desse mundo. Mas quando penso novamente, vejo que tudo nessa vida me fez ser assim, e que os acontecimentos pertinentes à ela também a transformaram mais e mais, me transformaram mais e mais.
Agora apenas sinto vontade de sentar em um bosque, pular em um lago, e observar a lua beijá-lo durante a noite inteira, contudo no segundo seguinte já sinto vontade de me jogar do mais alto prédio que encontrar no meu caminho e poder voar nos meus últimos segundos de vida.
A vida parece tão bela, mas nesse instante a morte parece o fim dos meus problemas, o fim das minhas dores, o fim das minhas lembranças, o fim de tudo, e um recomeço, um recomeço sem tristezas, sem desilusões, sem amores. Mas será que existe uma outra vida, em um outro lugar. Se existe, com certeza a morte seria melhor que a vida da forma como eu a vivo.
Poderia morrer como nos grandes impérios antigos, com uma espada, ou simplesmente com um veneno. Seria essa a solução? Não vejo outra em minha frente. Não seria simples arrumar algo nessa cidade, o mais fácil seria arsênico, mas seria uma morte tão dolorosa, pelo menos seria o fim.
Enfim, chegam os últimos segundos de sanidade, já sinto dores mas recuso-me a gritar, fico silenciosa e apenas observo a lua, parece que a dor não tem fim, mas ainda encontro forças. Minha mente começa a não formar mais figuras, e a perder os sentidos, já não entendo mais o que acontece em torno de mim, e meus sentidos parecem mais aguçados.
As dores começam a cessar, a visão começa a turvar, tudo começa a perder a cor, a perder as formas. Há pouca luz, e já não consigo ver quase nada, está ficando cada vez mais escuro, já não ouço barulhos, já não sinto mais dor, enfim tudo ficou cinza e o preto já alastra-se por tudo. A escuridão toma conta de mim.

Yohanna Madalozzo

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