8.14.2013

Plenilúnio

A brisa gelada da noite acaricia minha face e me traz uma sensação de liberdade, que não sou capaz de explicar, apenas quero sentir por mais um instante, pois nesses poucos segundos de leveza, parece que todos os meu problemas desaparecem. Além da brisa que me envolve, vejo ali o plenilúnio, que tem tal influência sobre minha mente que chega a ser sobrenatural, me trazendo felicidade e paz, talvez pelas lembranças esquecidas, ou por detalhes infimos relembrados.
Mas a vida não se resume a observar a Lua durante a noite ou sentir o vento sobre o corpo... Meus músculos se contraem e decido voltar para o meu quarto, me viro e enchaminho-me até a porta que separa minha sacada e meu aposento, perpasso-a e fecho-a. Caminho lentamente em direção ao longo espelho, que ocupa quase a parede inteira, e observo meu reflexo; se ele realmente mostrasse a alma das pessoas, acredito que eu não veria o que vejo. Passo a mão direita sobre minha face, que ainda não mostra os meus vinte e seis anos, e flashes de imagens vem em minha cabeça, vejo diferentes fases de minha, e nenhuma delas me agrada.
Canso de tanta reflexão, e olho para a minha cama exausta, encaminhando a ela. Deito-me e apago as luzes, mas a escuridão não aguça meu sono e fico ali deitada, pensando na minha vida monótona e massacrante, em minhas desilusões e anseios. Momentos marcantes de cada fase da minha vida parecem gravados detalhadamente em minha mente, como se tivessem sido entalhados ali. Alguns me fazem rir, alguns não me trazem mais reações, e outros me dão uma dor no peito e uma vontade incontrolável de chorar. A primeira lágrima escorre por minha face, mas logo contenho-me, dormir está noite, parece uma tarefa impossível.
Sento na beira da cama e observo tudo que há em torno de mim, e o que vejo é tudo aquilo que conquistei ao longo da vida: jóias, armas brancas, livros, perfumes caros, móveis trabalhados, roupas de grife... Vejo dinheiro e mais dinheiro. Mas não vejo a felicidade, não consigo encontrá-la em lugar algum, talvez porque não a conquistei, porque não gastei energias para buscá-la, para achá-la, sinto falta dela.
Me pergunto para que viver uma vida de trabalho duro e luxo, uma vida de dinheiro e poder, uma busca incessante por uma vida consumista. Uma vida amarga, uma vida triste, uma vida solitária. Não tem sentido viver a vida, se ela não for realmente vivida, e eu certamente, não estou vivendo.
Ouço o vento lá fora, que bate nas folhas e nos galhos das árvores, sinto uma vontade enorme de juntar-me a ele, e ser livre, não ter de pensar em mais nada. Observo atentamente a parede em que tenho armas mortais, adquiridas ao longo da vida, apenas pela beleza delas, mas que poderia me ser útil nesse instante, levanto novamente da cama, caminho pelo chão, descalça, e logo chego a espada maçônica, a primeira que adquiri, há três anos, certamente é a minha favorita.
Com o punhal bem seguro em minha mão examino cada centimetro da espada mais bela que já vi, passo o dedo sobre a lâmina e ele logo começa a sangrar. Passo a passo chego a sacada novamente, as luzes ainda estão apagadas, mas a lua está tão linda, que seu brilho é o suficiente para iluminar tudo, pés no chão e a espada em minha mão direita, quando passo pela porta, sinto o choque térmico, caminho lentamente, passo a passo, até o parapeito.
Com dificuldade, pela altura e por estar segurando uma espada com a mão direita, subo ofegante no parapeito, sinto algo quente que sai de dentro de mim, e a última coisa que eu vejo é o belo plenilúnio.

Yohanna Madalozzo

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