8.14.2013

Adaga de Prata

Sentada em minha cama, um diário aberto em meu colo, e a calmaria em torno de mim. Olho para frente, e vejo minha imagem no espelho, uma mulher por fora, uma garota por dentro, com meus 27 anos ainda sou uma garota de 18 dentro de mim, que vivenciou muitas coisas na vida.  Agora, mirando atentamente o espelho tento ver o interior, a minha alma, mas é tudo tão obscuro e assustador, enxergo apenas uma névoa cinzenta, que me domina interiormente.
Algo sobre a penteadeira me chama atenção, uma adaga de prata, com uma enorme pedra vermelha cravejada em seu punhal. Por que não? Afinal há tanto tempo estou assim, me sinto só, me sinto triste, não sou feliz.  Levanto-me, deixando o diário sobre minha cama, e caminho lentamente até a penteadeira de meu quarto, pegando a adaga em minhas mãos, e cerrando os punhos sobre ela.
Lembro-me do dia em que a comprei, numa tarde de novembro, em que passeava pelas ruas, e um homem vendia objetos antigos. Nunca imaginei que a usaria, mas sempre deixei-a como enfeite em meu quarto, adorava aquele objeto, era simplesmente maravilhoso. Agora estava entre minhas mãos, e no fundo tinha medo do que ela podia causar a mim.
Caminhei cautelosamente, ainda com os punhos cerrados sobre a adaga, e parei em frente ao espelho que tinha em meu quarto. Outra coisa pela qual eu era fascinada eram os espelhos, e no meu quarto, assim como em vários ambientes de minha casa, havia diversos espelhos pelos quais eu tentava me ver, e imaginar como todos me viam. Agora, alguém me mirava pelo espelho, essa garota que já se tornara irreconhecível para tantos, e chegava a ser uma estranha para mim.
Mirando-me no espelho, olhando dentro de meus olhos comecei a relembrar aquilo que devia ter esquecido, mas que deixei gravado cada detalhe em meu diário, para lembrar de cada detalhe, e não cometer os mesmos erros, me transformando no que sou hoje. Se nada disso acontecesse, minha imagem dentro dos meus olhos não seria a que vejo.
Uma imagem surge em minha mente, a imagem daquele que não devo lembrar, pois lembra-lo, ve-lo em meus pensamentos, em meus sonhos, é um dos meus maiores pesadelos, o que antes era meu maior sonho. Esse foi o meu maior amor, me arrisco a dizer que foi o único, e simplesmente não deu em nada, eu sofri, meu coração foi corroído, e minha vida tornou-se um breu. Vejo apenas a escuridão em minha mente, mas de repente surge uma luz, ela é pequena, mas me tira daquela escuridão sem fim. Essa luz foi trazida por um outro alguém, mas logo ela fugiu de mim, logo desapareceu de vista, e a escuridão voltou a reinar em minha mente, e a névoa densa chegou a minha alma. Meu coração já ficara totalmente puído, e meus olhos deixaram seu brilho para trás, minha vida deixou de ser a mesma, e eu me tornei o que sou.
Agora lágrimas acariciam meu rosto, e saem aos poucos de meus olhos, porque a vida foi dura, e porque eu não soube lidar com ela. Mas agora tenho uma adaga em minhas mãos, e não demorará para que tudo seja a paz. Furo o meu dedo levemente com a ponta da adaga, e gotas de sangue começam a manchar meu lençol, elas caem devagar, uma a uma, e vão deixando uma pequena mancha.
Antes que tudo termine escrevo uma carta, nas folhas de meu diário, com letra tremida, e de difícil leitura, mas deixo minhas lembranças e meu adeus, com algumas manchas de sangue e algumas lágrimas, poucas palavras ficam totalmente legíveis. E, enfim, chega o momento crucial, vejo apenas vermelho em minha frente, e tudo começa a escurecer.

Yohanna Madalozzo

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